O futebol brasileiro sempre esteve poluído por uma classe dirigente conservadora, reacionária, envolvida em denúncias de negócios obscuros, autoritarismos, assédios, troca de favores. Dirigentes afastados, presos, respondendo processos por assédio moral ou sexual, por desvio de dinheiro, por sonegação fiscal. O exame da lista dos ex-presidentes da CBF – Confederação Brasileira de Futebol – é a demonstração deste comportamento endêmico que trata o futebol como um grande balcão de negócios, negócios deles, é claro, em que o tráfico de influências é moeda corrente.

É, eu sei que isto não é privilégio do futebol brasileiro. Pelo mundo todo, este comportamento que mistura autoritarismo, tráfico de poder, dinheiro e ausência de uma fiscalização eficaz, determina afastamentos de dirigentes em nível nacional e mundial.

Ou seja, não somos uma ilha de corrupção no mar da ética. Esta é uma verdade que não se pode omitir.

Outro elemento de reflexão é que o futebol é um ambiente de muita subalternidade. Os protagonistas do esporte, normalmente, são extremamente subordinados a uma situação de dependência dos clubes e federações, são normalmente pessoas muito vulneráveis do ponto de vista social e que desde cedo, nas categorias de base dos clubes, aprendem que a subalternidade é um elemento de sobrevivência. O jogador de futebol não se vê como o protagonista do grande espetáculo, explorado por uma máquina que faz dinheiro que é recheada de engrenagens com caminhos obscuros que ele não conhece, não sabe como enfrentar. Por isto, o caminho da subalternidade é o caminho da resiliência em um ambiente extremamente agressivo. Dificilmente se vê tanta submissão em um ambiente de trabalho.

Se um servente da construção civil entende que a ordem dada pelo jovem engenheiro não é adequada para a construção de uma parede, não tenham dúvida de que o servente da construção civil vai debater sobre a ordem dada. Se uma caixa de um banco entende que a organização dos critérios de atendimento determinado pelo gerente está prejudicando o seu trabalho e de seus colegas no Banco, não tenham dúvida de que ela vai discutir a ordem dada. Isto é comum em qualquer ambiente de trabalho. Faz parte de qualquer ambiente de trabalho. Chama-se de alteridade. No futebol esta não é uma prática comum, eu diria até que é uma prática muito rara, especialmente no futebol brasileiro. Os protagonistas do negócio futebol se comportam no mais das vezes como trabalhadores sem opinião, atentos ao que está acontecendo em sua volta, mas sempre procurando não externar sua opinião, não argumentar com um treinador ou com um dirigente.

Eles sabem que no ambiente do futebol, ter uma opinião sobre o jogo que seja contrária ao entendimento do treinador ou uma opinião sobre a vida política ou social do país fere a regra da subalternidade. E eles sabem que violar a regra da subordinação a qualquer preço pode trazer muitos incômodos.

Tá bem. Tá tudo muito bem. Mas, o que nós temos com isto? Por que estamos falando sobre futebol, subalternidade, posicionamento sobre a vida? Porque na semana passada, os jogadores da seleção brasileira de futebol e toda a comissão técnica da seleção quebraram a regra da subalternidade. Em alto e bom som, os jogadores brasileiros e a comissão técnica afirmaram que não querem jogar a Copa América e não querem que a Copa América seja jogada no Brasil. Só isto já criou um grande debate nacional. Como assim, eles não querem jogar a Copa América no Brasil? Como assim eles estão se insubordinando?

Como assim estes trabalhadores querem se posicionar? A gravidade da situação do COVID e a ausência de qualquer importância em uma competição sem qualquer relação afetiva com o torcedor deixaram o caminho para que os protagonistas do negócio futebol se posicionassem. Eles não querem jogar a Copa América. Eles não querem que a Copa América seja jogada no Brasil. É a opinião deles. Eles têm direito de ter esta opinião. Eles não querem jogar a Copa Covid. Eles sabem que temos 500 mil torcedores mortos durante a pandemia. Eles não querem sujar seus pés neste campo de sangue.  Eles querem respeitar os nossos mortos. Esperamos que eles caminhem em direção à história, esperamos que eles estejam construindo um marco de resistência. Esperamos que eles estejam sendo o servente de pedreiro ou a caixa de banco.

 

ANTÔNIO VICENTE MARTINS, advogado, gremista, sócio do escritório Antônio Vicente Martins Advogados Associados, integrante da Rede Lado;

NASSER AHMAD ALLAN, advogado, atleticano-pr, sócio do escritório Gonçalves, Auache, Salvador, Allan & Mendonça, integrante da Rede Lado;

EDUARDO SURIAN MATIAS, advogado, pontepretano, sócio do escritório Loguercio Beiro e Surian Sociedade de Advogados, integrante da Rede Lado;

Texto divulgada na Carta Capital - dia 07 de junho de 2021