A pandemia suspendeu o presente e colocou uma névoa sobre o futuro da humanidade. Entre inovações e distopias, os próximos anos serão de incerteza e de intensas transformações. O mundo do trabalho viverá dilemas e adaptações que requerem um debate imediato. No Brasil, marcado por desigualdades e pela recente subtração de direitos sociais, as repercussões do atual momento podem ser ainda mais complexas.

Por isso, a Rede Lado foi conversar com especialistas, entidades de defesa dos trabalhadores e operadores do direito trabalhista para traçar um panorama acerca dos impactos da Covid-19. O material será compilado em três matérias especiais. A ideia é antecipar problemas e vislumbrar soluções para os desafios do trabalho e da cidadania no pós-coronavírus.

A seguir, você confere o primeiro desses conteúdos. A reportagem aborda os gargalos do home office e as mudanças do Low Touch, um conceito apontado como possível paradigma econômico da década.

Boa Leitura!

 



OS INCERTOS ANOS 20

A década de 1920 trouxe um sopro de criatividade e liberdade ao mundo. Agora, estamos às portas de outra revolução de costumes – bem menos lúdica do que aquela. A Covid-19 pode criar uma sociedade insegura e adepta do distanciamento social, que se refugia na internet para quase tudo. E isso afetará o mundo do trabalho de diferentes formas.

Por Emanuel Neves  



É segunda-feira, e Silvana acorda no horário de sempre. Não precisa de despertador. Por volta das 10h, seus olhos se abrem automaticamente. Em seguida, ela toma um café da manhã tranquilo e ruma para o cômodo de trabalho. Uma rápida chamada de vídeo com o supervisor é o suficiente para desenhar a jornada e as entregas da semana. Silvana é publicitária e, como boa parte dos jovens brasileiros, atua de forma remota desde o início da carreira. Não perde tempo com deslocamentos no trânsito, nem sequer viu um cartão-ponto. Faz seu próprio horário e trabalha por metas. É tudo mais ágil, sem burocracia. Simples assim. Por vezes, entretanto, as demandas avançam até a madrugada ou ocupam finais de semana. Às 20h, Silvana faz uma pausa e entra em outra videoconferência. Agora, com a fisioterapeuta que a auxilia no tratamento de uma tendinite na mão direita. Ela é de Brasília, foi indicada por um colega da empresa. Silvana, aliás, reside em São Paulo e nunca esteve com os demais membros da equipe fisicamente. Ainda assim, se dão bem. Júlia, por exemplo, é a sua melhor amiga. Mora em Natal desde pequena. Ambas se conheceram na faculdade, cursada pela web. Estão sempre conectadas, especialmente aos sábados à noite, quando frequentam salas com lives de baladas e pedem pizza no aplicativo da mesma rede de fast food. Gostam de apostar qual drone chegará mais rápido. No dia seguinte, às 10h, os olhos de Silvana se abrem novamente. Ao ligar o computador, ela é surpreendida por uma mensagem automática no aplicativo da empresa, informando a sua dispensa. O projeto em que atuava desde 2027 foi descontinuado. Após três anos, um comunicado online termina o vínculo e discrimina o saldo devido pelos serviços do mês anterior. É tudo ágil, sem burocracia. Simples assim. 

Quando a Primeira Guerra terminou e a Gripe Espanhola perdeu força, o mundo enlouqueceu. Mas no melhor dos sentidos. Os loucos anos 20 foram marcados por intensas mudanças culturais e de comportamento. Havia uma ordem tácita de festejar a vida após os episódios trágicos da década anterior. O reequilíbrio econômico de algumas das principais nações, associado ao surgimento de novas tecnologias, viabilizou um cenário de efervescência e experimentação. A humanidade se reinventou, embalada pelo jazz, conectada por meio das ondas de rádio, retratada em movimento nas telas mudas do cinema. Um século depois, o mundo parece ter pirado novamente.

A crise do coronavírus anuncia a chegada de uma nova era de transformações. Mas ninguém tem convicção sobre o teor de seus impactos. Ainda não sabemos se o ponto atual da história é mais próximo da porta de entrada ou do desfecho da pandemia. É certo, porém, que o episódio da Covid-19 ditará os rumos da sociedade ao longo dos anos 20. Seus reflexos irão se alastrar por todos os setores, moldando comportamentos, criando um novo jeito de viver. O trabalho, como tema transversal, será amplamente afetado. E isso suscita debates sobre o jogo de forças que surgirá daqui em diante. A pauta inclui um rearranjo de limites, conflitos e direitos, influenciando diretamente os agentes de defesa da classe trabalhadora e o próprio Estado.  

Morando no trabalho

A rigor, os últimos 60 dias podem ser considerados uma prévia não só do mundo do trabalho no pós-coronavírus, mas das modificações no desenho da sociedade. Muita gente está experimentando rotinas semelhantes à da fictícia Silvana de 2030, citada na abertura da matéria. Cerca de 60% dos brasileiros estavam em sistema de home office ao final do primeiro mês de distanciamento social. E a tendência é de que alguns deles não voltem mais aos seus postos de trabalho tradicionais. 

A consultoria de recrutamento Robert Half aponta uma mudança de avaliação (conteúdo em paywall) em relação ao teletrabalho por parte das empresas. Até o coronavírus eclodir, o modelo era visto como um benefício oferecido aos funcionários, em razão da pretensa comodidade. Mas a pandemia demonstrou que mandar a equipe para casa pode representar uma economia às organizações, sem perda de produtividade.  

Antes do isolamento, a consultoria de inovação Gartner já projetava 30% de crescimento global do home office nos próximos 10 anos. E os números devem crescer. Cerca de 74% dos executivos financeiros entrevistados pela mesma consultoria durante a quarentena afirmaram que a ideia é incrementar o trabalho remoto. O Twitter, por exemplo, já acenou com a ideia de adotar o teletrabalho para sempre. “A crise vai acelerar a introdução dos modelos baseados em tecnologia. Mas esse processo se dará por ordem do capital, no sentido da diminuição de custos”, alerta Cesar Sanson, professor de sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e coordenador do Grupo de Estudos Trabalho, Estado e Sociedade (Getes/UFRN). 

Há, inclusive, quem projete a morte dos escritórios, com o enxugamento das estruturas das empresas e a reconfiguração das moradias. O trabalho passaria a ocupar o centro do lar, mudando um eixo de significados ancestral. Isso pode ser desafiador e, muitas vezes, insalubre. 

Pelo direito de desplugar

Uma das vantagens do trabalho remoto é a flexibilidade de horários e a redução dos deslocamentos. Em tese, o resultado disso é um maior tempo para a vida pessoal. Mas não tem sido bem assim. Durante a pandemia, em muitos casos, o home office virou sinônimo de mais trabalho. Uma pesquisa da NordVPN apontou um aumento de 40% no expediente dos americanos. Países como Reino Unido, França e Canadá também registraram acréscimo na carga diária – em média, duas horas. A NordVPN fornece Redes Privadas Virtuais (VPNs, na sigla em inglês), utilizadas para garantir a segurança no tráfego de dados das empresas. 

O desregramento das jornadas, somado ao estresse da reclusão, tende a aumentar as doenças ocupacionais. A lista inclui desde Lesões por Esforço Repetitivo (LER), decorrentes do uso de recursos ergonômicos inapropriados, até enfermidades de ordem psíquica, como ansiedade e depressão. “Temos notado essa aceleração de casos acima da média. Sem contar aqueles que não puderam trabalhar de casa e foram expostos ao contágio por falta de equipamentos de proteção”, relata Edison Flores, presidente nacional do Departamento Intersindical de Estudos e Pesquisas de Saúde e dos Ambientes de Trabalho (Diesat). Aqui, Flores se refere às prévias de relatórios das secretarias municipais de saúde analisadas pelo Diesat, já que ainda não existem números consolidados sobre o tema.

Um dos desafios impostos pelo crescimento do home office, portanto, é a busca por dispositivos capazes de frear a opressão do trabalho sobre o cotidiano. No Brasil, as atividades remotas não estão sujeitas a uma jornada máxima diária ou semanal. “Já sugerimos a elaboração de uma norma que estabeleça um direito à desconexão por parte do trabalhador. É uma forma de garantir que o empregado não esteja permanentemente à disposição da empresa”, adianta Luiz Colussi, vice-presidente da Associação Nacional dos Magistrados do Trabalho (Anamatra). 

A homogeneidade entre os afazeres profissionais e as demais áreas da vida tem muito a ver com o ambiente no qual o cotidiano atual se desenvolve. No mundo virtual, a separação entre relacionamentos pessoais, entretenimento e trabalho se dá apenas pelas abas de um navegador. E a pandemia pode fazer com que essa realidade se intensifique, originando um novo tipo de economia.

Um robô para chamar de seu

O termo Grande Isolamento vem sendo usado por analistas para classificar a quarentena global. É um epíteto que dá o devido peso histórico ao fato, como as referências feitas às Grandes Guerras ou à Grande Depressão. O mundo não se manteve em duelo ostensivo após o término dos principais conflitos armados do século passado. Tampouco a crise criou morada e se tornou irrevogável depois da quebra da bolsa de 1929. Mas pode ser diferente com o coronavírus. 

O medo do contato físico, pauta central da pandemia, pode moldar comportamentos de consumo baseados no distanciamento. A economia Low Touch (economia de pouco contato, em livre tradução) começa a ser apontada como o paradigma do novo normal que se estabelecerá nos próximos anos. Entre as suas premissas está a migração massiva de processos e atividades para o cenário digital. A distopia em que Silvana habita já é assim. A internet é o seu canal prioritário para trabalhar, buscar tratamento médico, interagir com pessoas, consumir entretenimento e comprar comida. Os últimos meses não foram muito diferentes disso ao redor do mundo. 

Na prática, o Grande Isolamento surge como dínamo para as alterações preconizadas pela chamada Revolução 4.0. O Low Touch, assim, é um novo degrau de uma transformação que já está em curso e deve acelerar fenômenos como a automação e a virtualização das relações de trabalho. A substituição da mão de obra humana pela Inteligência Artificial, até então defendida pelo viés da eficácia e dos custos, ganharia um novo reforço. A humanidade pós-coronavírus, asséptica e temerosa do contato epidérmico, encontraria maior segurança em lidar com robôs e drones do que com seus semelhantes.

O conceito tem cara de Black Mirror, mas não parece disparatado se olharmos pela janela. No âmbito do trabalho, isso pode ser sinônimo de arrocho ou mesmo de desaparecimento de algumas profissões. “Ao contrário de outras revoluções industriais, a 4.0 é uma mudança que poupa força de trabalho e cria categorias seletivas, altamente capacitadas, enquanto precariza e suprime a importância de outras funções”, analisa Cesar Sanson, da UFRN. Boa parte dos profissionais mais ameaçados por essa inovação atua em cargos operacionais ou mesmo em serviços considerados essenciais. 

Importância retomada

O coronavírus, aliás, expôs uma relação inversamente proporcional entre a utilidade e a remuneração concedida a esses trabalhadores. E muitos deles tiveram de acatar uma diminuição dos vencimentos como saída para a manutenção das vagas em meio à crise. A ameaça do desemprego, acirrada pela ascensão de uma economia que sugere prescindir dos recursos humanos, liga o sinal de alerta para a garantia dos direitos trabalhistas nos próximos anos. “Cenários assim geram grande angústia. O trabalhador se vê obrigado a abrir mão de benefícios para assegurar o sustento. Isso aprofunda o ataque frontal aos direitos sociais que vêm ocorrendo nos país”, ressalta Luiz Colussi, da Anamatra. Nesse sentido, a pandemia reforça a importância das entidades organizadas de defesa dos trabalhadores. 

O esvaziamento e o brete impostos aos sindicatos pela Reforma Trabalhista começam a cobrar o seu preço. A Covid-19, por outro lado, pode incitar uma retomada do valor dessas instituições, especialmente em momentos de desequilíbrio. “Talvez seja o único lado positivo da crise. Os trabalhadores devem mudar o olhar sobre a função dos sindicatos, tanto na proteção à saúde e à segurança quanto na elaboração de acordos e na garantia de empregos”, confirma Edison Flores, do Diesat. Ainda assim, o Low Touch exigirá uma readequação dos sindicatos.

A criação de relações trabalhistas individualizadas e o chamado “capitalismo de plataforma” irão impactar essas entidades, desde sempre ligadas às questões do emprego formal. “O mercado está cada vez mais desestruturado, com o crescimento de uma massa gigantesca de trabalhadores informais. É possível que surjam novas organizações a partir dessa adequação”, projeta Sanson. A adaptação geral abrange a necessidade de recapacitação como rota para alocar profissionais excluídos pelo Low Touch. 

O modelo educacional e de formação do capital humano também será afetado pela aceleração da digitalização no pós-coronavírus. E isso deve impulsionar o ensino a distância (EaD). A quarentena já catapultou muitos educadores à condição de professores virtuais. Mas a migração ocorreu sem a devida preparação ou suporte. “Eles acabam sofrendo pressões dos diretores e até dos pais dos alunos. O modelo de home office, da forma improvisada que está, é deletério aos profissionais em diversos sentidos”, acredita Sanson. Outro gargalo tem a ver com o acesso aos recursos tecnológicos. 

10% a menos

Atualmente, um em cada quatro brasileiros não possui acesso à internet. São cerca de 46 milhões de pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Elas correm o risco de ficar ainda mais para trás caso a economia com predomínio do online se consolide. A consequência seria um agravamento da exclusão e das distorções sociais do país. Há uma necessidade de intervenção do Estado no sentido de equipar os trabalhadores para os desafios que se anunciam. Isso depende, sobretudo, de uma guinada no entendimento sobre o papel, a Constituição e a atuação das instituições públicas. “O Estado mínimo, ou mesmo a ausência dessa entidade, não é um conceito compatível com as necessidades do país. Precisamos dessa participação para avançar em busca da dignidade humana”, ratifica Colussi. “Nossas carências e desigualdades são muito grandes.” 

Os abalos econômicos provocados pela Covid-19 ainda não podem ser devidamente dimensionados, mas certamente serão profundos. Existe a projeção de que, em todo o mundo, haverá uma retração de 10% da economia. O fenômeno foi chamado de Economia dos 90% pela revista inglesa The Economist e é outra das perspectivas do pós-coronavírus. Caso a previsão se confirme, o desaparecimento inevitável de vagas será mais um complicador para a travessia do país na largada dos anos 20. Caberá ao Estado, novamente, buscar soluções para evitar um quadro de penúria social. 

Não à toa, a discussão sobre a estruturação de programas de renda mínima universal voltou à tona com a pandemia. A próxima matéria do especial abordará as dificuldades e soluções derivadas dessa pauta. O conteúdo será veiculado na newsletter do dia 19 de junho. Até lá!